quinta-feira, 30 de maio de 2013

Tríplice amor

Quero um pedaço de Deus
Que recebo em forma de vacina
Contra uma tristeza sem fim.
Uma ausência daquelas que está,
Mas não está.

Quero quebrar aquele conta-gotas
E virar o pote de eros na garganta.
Talvez morrer de overdose,
Talvez ter alucinações,
Telvez me viciar.

Mas eu gosto
De quando a gente não consegue
Se satisfazer com uma dose prescrita
E se banha de interdições,
Como se elas existissem.

Acordo e não vejo nada,
E nada de errado.
Será que todo ser humano precisa de um erro na vida?
Equilibrar pratos não é nada fácil
Quando não se nasce em uma tenda circense.

Vou remando, remando, remando,
Mas a praia parece que não chega nunca.
Meu deserto é de água.

domingo, 9 de setembro de 2012

Fiquei pensando na maneira como tinha falado com ela.
Se não tinha sido muito monossilábico,
se não tinha deixado-a com peso na consciência,
se não estraguei sua expectativa de falar comigo.
Eu nunca sabia qual poderia ser a intensidade de suas reações,
por menores que fossem as circunstâncias.
Afinal, é uma mulher.
Mas não foi isso que me tirou o sono.
O tom de sua voz me deixava derretido,
ainda mais quando estava carente.
Eu adorava quando ela falava de mansinho,
bem baixinho,
como se tivesse medo de falar e errar as palavras.
Fiquei pensando nisso.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Funil

Não me importo muito com quase nada.
Cheguei ao que não imaginava
Imaginando de tudo.

Fiz meus planos nos guardanapos do bar,
Peguei meus trocos sem conferir,
Dei risada de coisa séria.

Os livros, que já tratei como deuses,
Hoje trato como humanos:
Vez bem, vez mal.

Não comemorei tanto minhas conquistas,
Não fui a festas de cinquenta reais.
Brindei com a Lua.

Meu amor, que era imenso e inseguro,
Deixei que falasse devagarinho.
Ele gostou... Amou.

Já expectativas... Com elas eu não posso.
Pelo menos aprendi o importante:
Olhar a toda a volta
E compreender.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Sons da Brigadeiro / Mulher-gato

Imagens duplas e tortas,
Mordida torta de maçã
E cabelos de milho.

Quando penso em você esqueço de tudo isso,
Pois tudo o que tem são os sons da Brigadeiro.
E o que mais lhe importa, se não os sons
De passos, roncos e das garoas de metal?

Queria tanto que você me percebesse,
E então viria o quanto lhe olho,
Me perguntando, se pudesse ver,
Qual seria o tom de seus olhos.
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Todos os dias, no caminho que faço e fiz,
Vejo malas-armário e papelões-colchão.
Mas desta vez vi, na praça 14 bis,
Algo mais sujo que o próprio chão.

Num relance, vi a mulher-gato
Tomando seu banho, coitada,
No meio da calçada, em anonimato,
Tentando não ser um nada.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Pausa

De vez em quando, só me mata o compromisso;
Tenho fogo, vida e mar, mas o tempo, omisso.
Ainda bem que existem certas pequenezas
Que não precisam de tempo... Só suas belezas.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Vida de cão

E agora, que a coleira não tem guia?
Cão sai cheirando público e privada.
Qual será o pior ou melhor pra vida?
Se em um ele faz tudo, no outro, nada.

E essa é a vida do cão sem dono e só...
Vira lata a lata em busca de pão
Ou qualquer coisa que lhe encha o gogó.
Mas ainda não matou sua fome, não.

E o que é que tem essa situação?
Cão que é cão não vive pra matar fome,
Vive dia a dia em busca de pão.
Quando come, lambe os beiços e some.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Quanta dualidade extremista
Será necessária pra enxergar?
Quanto tempo tens em vista
Até que possas governar
Sua própria vida?

Enxerga todos os fatores!
Genético
Pessoal
Psicológico
Social
A influência
O meio
O tempo
A situação
E não julga seu irmão,
por favor.
Ele está, ele não é.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Só dicionário tem coragem?

desculpa
des.cul.pa
sf (des+culpa) 1 Ação de desculpar ou de se desculpar. 2 Alegação atenuante ou justificativa de culpa. 3 Absolvição, exoneração. 4 Escusa. 5 Evasiva. 6 Pretexto. 7 Indulgência, perdão.

Ou é só Buarque de Holanda Ferreira que percebe a necessidade?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

De Tolstói

As estradas são lisas, a luz viva, o ar estimulante.
Fique bem calmo e trate de se esquentar.
E a monótona vida burocrática,
As aperturas de dinheiro,
e assim um ano, dois, dez, vinte,
Perfeitamente idênticos.

As pessoas fingem que o repugnante e vergonhoso
É belo e sublime.

Não me responsabilizo mais por mim!
Precisamos andar no sentido do vento.
Não fales de repente, pensa um pouco,
Para me dizeres tudo o que pensas.

Estás descontente comigo, e tens provavelmente razão,
Mas deixa-me compreender qual é a minha culpa.
Amor não contém em si nenhuma obrigação moral.
Cuidado! Que no mundo tudo continua como de costume.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Enquanto as notas se vão

Enquanto as notas se vão...
Estou aqui sentado em um quarto
Cheio de vontade e desejo,
Escuro, mas eu vejo
O tamanho do fardo.

Não consigo me imaginar
Te abandonando e indo viajar,
Deixando o que construímos
Nessa vida que mal possuímos.

Vem comigo, canta comigo,
Faz meu fundo musical
Enquanto as notas se vão.
Me leva daqui,
Me leva pra onde as notas vão.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Espero

Esperar até que tudo se resolva
É covardia? A alma é pequena?
É medo? Não é uma pena?
Não, por mais que se ouça.

Perdão, meu doce Senhor!,
Mas não sei o que é ter opinião,
Não sei o que é cantar uma canção
Sem pensar no sim ou não.

Mas obrigado, meu doce Senhor!,
Pela vergonha que me toma,
Pelo vinho nesta taça
E por saber
que tudo passa.

domingo, 27 de novembro de 2011

Ela não sabe fazer poesia
Ela não tem a malícia
Tem no coração a alegria
De ser, e ser com valia.

Mal sabe qu'eu sei
Qu'ela sabe qu'eu dei
O qu'ela sabe que tenho
E qu'eu quero dela também.

Não pensa muito não,
Me dá logo uma mão,
Pois a outra...
Aperta com pressão.

domingo, 21 de agosto de 2011

Poesia guardada

Fones de ouvido, livros e fotografias

São coisas que encontramos todos os dias

Pois sabemos que uma hora ou outra precisamos

De algo que ajude na passagem dos anos.


Mas pra onde vai isso tudo,

Se não for pra essa música?

E mais uma vez vou ficar mudo

Se não sair nada de mim.


O que será do ano que vem?

Quando estarei sem alguém

Pra tapear e apertar assim

Meus braços de cetim.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Escolhendo mexericas

Essa não
Essa não
Também não
Essa também não
Tá, essa vai.
Essa não
Não
Também não
Também não
Opa! Ah, também não
Ai ai, vai essa então.

Deus me acuda!

sábado, 16 de outubro de 2010

Baganas do hospital

A bexiga estourada no chão deve ser do aniversário,
Que deve ter sido do garoto daquela casa rosada,
Que foi construída por um homem simples,
Que talvez nem esteja mais vivo,
Porque faz muito tempo
Que ninguém o vê.

Mas que histórias mais tristes
Aquelas das baganas na calçada do hospital.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Quando sonhar faz mal

Coisa mais antagônica
Esse negócio de viver
Sonhando em ser...
E perder.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O conselho de Deus

Deus está aqui agachado, ao meu lado,
Contorcendo o rosto ao sol
E sorrindo.
Se pergunto das belezas e alegrias,
Se pergunto das tristezas tão vazias,
Não importa,
Ele não responde,
Mas olha pra mim
Sorrindo.

sábado, 18 de setembro de 2010

Poesia inerte

O doce recusado perde o gosto,
Cai aos pés, como uma oferenda ao chão.
Posto que depende de cada rosto,
Meu doce às formigas se deu então.

Dali foi carregado, ovacionado.
Chegou a um lugar onde o nada é tudo,
Onde o abraçar não é objeto de estudo
E seu lamento é sempre emocionado.

Tormentos se desfazem num coreto,
Que, sem intenção nenhuma, diverte
A mente de quem merece um soneto
Mas tem na alma poesia inerte.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Ingénierie environmental

Nove ciclos de faz-não-faz
Oito picos de paz
Estritamente decrescente
Alguns pontos em mente
Nas caudas de Gauss
Guiado por vetor falso
Ânimo senoidal
Pouca fibra e muito sal

Droga!
Além de minha vida ser um gráfico estúpido,
Estou na média.

Preciso de um nylon pra viver!

domingo, 15 de agosto de 2010

A mosquinha

É interessante pensar na realidade,
Que ela nunca é igual aos filmes...
Mas um terceiro olho, fora de mim,
Filmou tudo e injetou em minha memória.
Eu, sentado em uma grande pedra, à beira do rio,
Lia um livro repleto de animais falantes.
A água, que vinha com uma certa braveza, respingava
E alcançava meus pés, dizendo: Arrepias, sente a vida!
Quando deitava, os cristais cutucavam minhas costas,
Mas acho que aquele lugar era feito pra mim...
Eles me massageavam... Me provocavam.
No fundo acho que queriam dizer:
Vem, prova que ainda faz parte de meu mundo!

Outro dos deles, uma mosquinha, apareceu.
Em um milésimo de segundo, minha mente
Astuta e concretada, logo agiu: Puta que pariu!
Estava demorando pra zumbirem no meu ouvido.
Ah, que frio... Arrepias, sente a vida!

A mosquinha estava tão parada no ar,
Que parecia o mundo girar à sua volta.
Ela se aproximava com muita cautela,
Lentamente, àquele campo vermelho!
Era um vermelho tão vivo! E tão... Constante!
Morri! - devia pensar.

Pra mim, apenas uma contra-capa!
Coitada, escapou da morte,
Mas não de uma grande ilusão...
Terminei o livro naquele dia e, quando eu voltar,
O livro vai ser outro.

Sorte que ela é apenas uma mosquinha.